sábado, 17 de julho de 2010

Sítio arqueológico Gaiola


Como já afirmamos no capítulo anterior, a região possui muitas formações rochosas que serviram num passado remoto de abrigo, habitação provisória e de acampamentos aos grupos pré-históricos que, na condição de nômades viviam nesta parte de Pernambuco.
Os locais são caracterizados pela existência de blocos rochosos, agrupados ou isolados, chamados de matacões. Normalmente, se forma um abrigo pelo processo de arrasto do sedimento que estava acumulado em suas bases.
Encontramos tais abrigos nas encostas das serras, nas colinas e até nas margens dos riachos. A região fica em média 500 metros acima do nível do mar, propiciando climas mais amenos, desenvolvendo o brejo de altitude, com várias plantas frutíferas nativas e, por isso, locais propícios a sobrevivência como pontos estratégicos, tendo em seu entorno ambientes bastante secos.
 Desde meados da década de 1980 foram realizadas inúmeras prospecções e catalogação de sítios arqueológicos no Agreste Pernambucano, porém as pesquisas na Bacia do Rio Una, praticamente não foram ainda realizadas. No entanto, recentemente tivemos notícias da existência de sítios com gravuras rupestres, denominadas itaquatiaras, nos municípios de Ibirajuba e Jurema que passou a fazer parte do nosso objeto de estudo.
A continuidade das pesquisas passa a ser uma exigência urgente e é isso que tenho em mente, para prosseguir na formação em um nível de Stricto Senso.
Com a ampliação dos estudos, se for comprovada o aumento do número de sítios com vestígios pré-históricos fica evidente um Enclave Arqueológico, naquela parte da bacia do rio Una. Em outras palavras, tem-se um caracterizador cultural de uma provável etnia pré-histórica dentro da região Agreste de Pernambuco que em sua maioria possui mais sítios com pinturas e/ou com gravuras. Sem descartar a possibilidade de outros testemunhos arqueológicos, como a cerâmica, o lítico, estruturas antrópicas, restos alimentares, entre outros.
 
1.    Localização Geográfica
  Nossas pesquisas estão voltadas para análises preliminares do sítio arqueológico, conhecido localmente como Gaiola, que fica na zona rural do município de Ibirajuba, PE.

Localização, obtida a partir do uso do Google, conforme se lê nas legendas dentro do gráfico.

A sede do município fica nas seguintes coordenadas geográficas: 08°34'51" Latitude Sul e 36°10'44" Longitude Oeste, mas o sítio está a 10,9 quilômetros do centro daquela cidade, próximo dos limites do município de Jurema (5,4 km) sendo mais perto desta, mas onde fica o sítio é território de Ibirajuba.
Recebeu este nome, provavelmente por está dentro do sítio rural homônimo. O Gaiola também é o nome do rio que corta aqueles municípios, sendo tributário do Rio Una. Geralmente passa o maior período do ano seco, sem movimentação fluvial nos períodos de estiagem. No entanto se pode observar vestígios da existência de água no pretérito, mas no presente existe sim um caldeirão (mais ou menos há 90 metros do sítio arqueológico) do leito rochoso do rio, que acumula água das chuvas e das cheias.
Toda a região é coberta por vegetação de caatinga, sobretudo, observa-se muitas cactáceas, arbustos e árvores retorcidas, mormente desse bioma árido. Numa de suas margens existe um enorme afloramento rochoso, denominado de lajedo de mais de duzentos metros de comprimento, fica em uma elevação de mais ou menos 590 metros acima do nível do mar, neste lajedo existem vários registros rupestres identificados como itaquatiaras, segundo a classificação das técnicas empregadas na produção de registros rupestres. 

Localização do sítio Gaiola, Ibirajuba/PE. O paredão com as gravuras está voltado para o Oeste.

O rio gaiola corta uma parte do lajedo granítico formando dois braços, sendo que num destes braços existe o painel principal[1] com várias gravuras rupestres, o local desses grafismos possui as coordenadas geográficas 8° 40’ 52” S; 36° 10’ 39” O. Há ainda mais dois locais com grafismos rupestres com poucas unidades de registros e ficando isolados um do outro. Este fato é de extrema importância, porque nos indica para uma ocupação mais intensa.
A localidade apresenta uma densa vegetação de caatinga, apesar de algumas faixas que fora desmatadas para plantio e o pastoreio de rebanhos bovinos. Mesmo assim, a observância de recursos hídricos é escassa. Do ponto de vista biológico poderíamos considerar o local como uma das poucas alternativas de acesso a recursos hídricos da região, alguns moradores locais denominam a área do lajedo de brejo. O estudo da pré-história brasileira tem fornecido algumas contribuições neste sentido visto que, a maioria dos sítios arqueológicos conhecido no Agreste pernambucano fica nas proximidades dos referidos brejos, ou seja, havia abundância de água em outros momentos.

A evidência do afloramento rochoso onde se encontra o sítio Gaiola. Outro ângulo do mapa.

Especial importância têm os brejos no “habitat” pré-histórico, espécie de oásis em regiões extremamente secas, ou “ilhas da umidade”, como as chama Aziz Ab’Saber, ou ainda “ilhas verdes”, segundo a definição do geógrafo pernambucano Mário Lacerda. Elas quebram a monotonia das condições físicas e ecológicas dos sertões secos, devendo-se registrar que, na linguagem popular, chama-se “brejo” qualquer setor úmido existente na área do domínio do semi-árido. Os brejos têm solos mais férteis, com filetes d’água, onde é possível o cultivo de quase todos os produtos e frutas típicas dos trópicos úmidos. O brejo é, portanto, um enclave tropical no semi-árido. Essas manchas úmidas que dominam as encostas serranas situadas em regiões semi-áridas, têm meso-climas ilhados entre áreas de grandes deficiências hídricas. (MARTIN, 2005)


2.    As Características do Sítio Gaiola

2.1.        As gravuras rupestres


Neste sítio são observadas gravuras rupestres, identificadas como itaquatiaras. Isso se torna o principal elemento identitário para caracterizar o local como um Sítio Pré-Histórico.
Vale reforçar o que já foi dito, que as itaquatiaras possuem técnicas de confecção muito distintas das pinturas rupestres, neste caso os registros rupestres eram gravados e não pintados. No painel principal existem muitos grafismos, sendo na sua maioria os grafismos puros, mais há também algumas gravuras que podem aludir a fitomorfos (representação de plantas, vegetais, frutos, etc.), porém não foram identificadas representações humanas, tampouco de zoomorfos, o que torna este sítio muito peculiar, se comparados com outros painéis do mesmo tipo de grafismo, conforme foto do painel da Pedra do Ingá, no capítulo II.
Painel principal com as Gravuras itaquatiaras, no Sítio Gaiola – Ibirajuba/PE.

No painel há um grafismo que pode parecer à representação de um zoomorfo. Que analisando a silhueta na qual foi insculpida na rocha, pode-se arriscar essa suposição, todavia, não temos como provar tal intencionalidade. No caso um peixe da espécie dos jundiás e/ou popularmente chamados de “Chupa-Pedra”. Existem duas gravuras que se destacam em todo o painel, dois braços humanos sobrepostos, isso desperta a curiosidade e aponta para um estudo mais profundo dessas gravuras.
 A importância do sítio como caracterizador cultural distinto da maioria dos sítios com itaquatiaras, pois em toda a arte rupestre brasileira a prática comum é a representação pictórica de mãos (chamadas de carimbos), contudo, neste sítio os dois braços se destacam no painel. O suporte/paredão, no qual foram talhadas tais gravuras rupestres tem 5,6 metros de comprimento por 2,65 de altura. Os dois braços possuem 52 cm de comprimento por 43 de altura.
Gabriela Martin (UFPE) e Paulo Tadeu (ex-UFRN) defendem que sítios dessa natureza provavelmente foram ocupados para fins cerimoniais, devido à presença da água no ambiente, locais com recursos hídricos deviam ser cultuados, exatamente para se opor a sua escassez.

Braços humanos sobrepostos. Tipos de grafismos muito incomuns na arte rupestre brasileira.


Além dos braços humanos insculpidos na rocha, não há nenhuma outra evidência de representações alusivas a seres humanos, o restante são os grafismos puros que jamais poderemos identificar seu significado devido à incompreensão do sentido místico, simbólico e sensível dos autores dos grafismos. Alguns grafismos puros lembram a Tradição Agreste, sobretudo, as pinturas rupestres do Sítio arqueológico Alcobaça, porém, as técnicas empregadas são distintas.


As insculturas que talvez sejam fitomorfas se parecem bastante com plantas cactáceas, como mandacaru, levando-se em consideração a semelhança morfológica de tal grafismo e a sua grande recorrência no bioma da caatinga, parece também com plantações de milho, porém, para esta semelhança é preciso bastante cautela pela ausência de vestígios materiais de prática de seu cultivo na pré-história da região e também pelo desenvolvimento preliminar das pesquisas nesta área. 

No mesmo painel vemos representações semelhantes à fitomorfas.
O sítio não oferece camadas estratigráficas que possam ser realizadas escavações, pois o solo do paredão onde fica as gravuras é continuidade do lajedo, complicando o trabalho arqueológico, por isso torna-se importante a procura de outros abrigos que possam ter sido utilizados pelo(s) grupo(s) que viveram naquela área. Outro aspecto que pode levado em consideração é a possibilidade de no entorno do sítio ser encontrados vestígios secundários que revelem mais informações dessa ocupação.
As itaquatiaras necessitam urgentemente de um trabalho de identificação e classificação visto que muitas partes do bloco com inscrições rupestres caíram, provocados provavelmente pelo intemperismo e pela lixiviação causada pelos períodos de cheia do rio Gaiola.
Outro sítio arqueológico, o Boi Branco, no município de Iati (Agreste Meridional), localizado a mais ou menos 90 quilômetros de distância do sítio gaiola. Lá tem algumas gravuras muito parecidas com as de cá, parece-me que as técnicas de elaboração empregadas nos dois sítios são análogas, levando-se em consideração que os dois sítios têm características semelhantes:  as margens de leitos de rios.
A hipótese de coincidência deve ser descartada pelo fato de que as técnicas e imagens representadas nos dois sítios são muito parecidas, porém, no Boi Branco observam-se muitos cúpules[2], enquanto no Sítio Gaiola apenas poucas unidades. Nos dois sítios existem linhas consecutivas e sinuosas que segundo Anne-Marie e Gabriela Martin, consideram que possam representar o curso do rio. No Sítio Gaiola essas linha tem 4,10 metros sendo uma das maiores representações de linhas sinuosas (grafismos puros) da pré-história brasileira.
 
Linhas sinuosas do Sítio Gaiola, em Ibirajuba à esquerda e, os mesmos grafismos, à direita do sítio Boi Branco, Iati.

Outros vestígios observados no Sítio Gaiola reforçam, para nós, que o grupo cultural que por ali passou era caçador-coletor. Assim podemos indicar partindo dos registros deixados por eles, onde não se percebe, por exemplo, nenhuma alusão a atividades específicas aos agricultores. Como coletores, observamos carapaças de moluscos (tipo caramujos), reunidos de forma que indica intencionalidade, foram colocados ou empurrados por enchentes para um local onde ficou difícil ser arrastados por uma segunda enxurrada. As duas ideias são possibilidades, mas não invalida a outra questão: ter sido abandonado ali como resto alimentar. Como o sítio não possui sedimento buscamos nesses detalhes indicativos de atividades antrópicas.
Nas imediações da cidade de Jurema, temos notícias da existência de muitos sítios com gravuras e pinturas. As pesquisas ainda são muito tênues e preliminares, mais no decorrer dos estudos que estão (uns nas intenções, outros em andamento) sendo realizados espera-se uma maior riqueza de dados e possa confirmar a classificação de Enclave Arqueológico e que aumenta de importância por está dentro da já definida Área Arqueológica dos Cariris Velhos, corroborando com as pesquisas da UFPE, da UNICAP e outros centros.


[1] Utilizei tal expressão pela constatação de mais dois locais com gravuras rupestres, contudo, neste painel existe a maior concentração de grafismos.
[2] Segundo o arqueólogo Andre Prous, cúpules são representações de pequenas esferas gravadas nas rochas.

domingo, 27 de junho de 2010

As itaquatiaras


Esta forma de manifestação é comum na região Nordeste. Possui também técnicas laboriosas na produção de outro tipo de grafismos e neste caso, trata-se de uma produção esculpida em suportes rochosos duríssimos (como o granito – rocha metamórfica), o que requer muito empenho e trabalho na obtenção das gravuras. Geralmente, são encontrados nas proximidades de riachos, cachoeiras, arroios e qualquer lugar que tenha sido curso d’água e hoje comumente extinto. 

Se utilizássemos os mesmos critérios de classificação das pinturas podíamos afirmar que esta arte é bastante complexa dentre todas devido à maioria de suas representações serem enquadradas àquilo que é mais difícil de classificar: os grafismos puros. No entanto, pode apresentar também raras figuras antropomorfas e zoomorfas, mais as figuras indefinidas são bastante dominantes nesses painéis.

Existe a suposição de que a maioria dos sítios com Itaquatiaras envolvem de algum modo um culto as águas, contudo não podemos provar tal teoria. Esta ideia se norteia a partir do princípio de que nas regiões de clima semi-árido os locais que, de alguma maneira, forneçam água aos habitantes sedentos são levados a considerar como sendo locais sagrados. Sobre as explicações dessa arte vamos transcrever o que falaram a professora Gabriela Martin da UFPE:

Nos cursos de muitos rios, arroios e torrentes do Brasil existem disseminados de norte a sul, desde o Amazonas ao Rio Grande do Sul, gravuras indígenas realizadas nas rochas das margens e nos leitos dos cursos d’água. São conhecidas pelo nome de itaquatiaras (pedras pintadas, em língua tupi) e que são, de todas as manifestações rupestres pré-históricas do Brasil, aquelas que mais se têm prestado a interpretações fantásticas. Estes petróglifos são de feitura, tamanho e técnica de gravura muito diferentes, dependendo da ampla geografia brasileira. [...] Nessa tradição, típica da região nordestina, predominam grafismos puros, porém deve se registrar a presença de antropomorfos, alguns muito elaborados, inclusive com atributos, como os encontrados na beira do São Francisco, em Petrolândia, PE. Há marcas de pés, lagartos e pássaros em grandes paredões, sempre próximos d’água, e também desenhos muito complexos, que, na imensa solidão dos sertões. Indubitavelmente as itaquatiaras formam a tradição ou as tradições mais enigmáticas de toda arte rupestre do Brasil. Por estarem quase sempre nos cursos d’água e, muitas vezes, em contato com ela, resulta difícil relacioná-las com algum grupo humano, sobretudo pela impossibilidade, na maioria dos casos, de estabelecerem-se associações com restos de cultura material. Entretanto, existem algumas exceções quando as itaquatiaras identificam-se com culturas de caçadores, em abrigos próximos a rios ou em caldeirões. Estes depósitos naturais que se enchem d’água na estação das chuvas, têm, às vezes, as paredes cobertas de petroglifos e tem sido possível realizar-se escavações nas proximidades com bons resultados. É também muito difícil fixar cronologias para esta variedade de arte rupestre. (MARTIN, 2005)

Painel do Sítio Pedra Lavrada de Ingá, PB.

Sem dúvidas, as itaquatiaras do Nordeste do Brasil são os registros rupestres mais enigmáticos e de difícil estudo arqueológico, devido à falta de sedimentos nos locais onde foram gravados os registros, isso estabelece barreiras na prática de prospecção arqueológica de um modo geral.

Provavelmente as itaquatiaras são mais recentes que as pinturas da Tradição Agreste, por serem pouco numerosas em número de figuras, isso levou a acreditar-se que não ultrapassem dois milênios Antes do Presente.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A tradição Agreste


Supõe-se que os primeiros grafismos denominados de Tradição Agreste surgiram na região Agreste do Estado de Pernambuco e também da Paraíba. São registros rupestres mais toscos, rudes, e em dimensões maiores que a Tradição Nordeste. Na maioria das vezes representam seres estáticos, sem movimento, ou sugerindo pouco movimento.


Composta pela representação de figuras humanas e alguns animais, conta com um número significativo de “grafismos puros” – isto é, aqueles desprovidos de traços que permitem identificá-los com uma representação de nosso universo sensível. Caracteriza-se pelo impacto visual do intenso preenchimento das figuras com corantes vermelhos sendo raras as cenas; as figuras são representadas de forma estática. É originária da região agreste de Pernambuco, sendo suas manifestações mais antigas datadas de 11 mil anos AP. [...] são figuras humanas maiores do que as representadas na tradição Nordeste, não tão bem delineadas e totalmente preenchidas por tinta vermelha escura. (GASPAR, 2003)


Nesta classificação, os antropomorfos apresentam-se de forma isolada, de difícil compreensão, chamados de “grafismos puros”, não tão bem elaborados como na outra tradição. Existem também muitas representações de sáurios (lagartos e répteis) que são animais muito comuns no ambiente semi-árido coberto pela caatinga.
 
[...] a tradição Agreste, caracterizada pela presença de figuras humanas de forma muito típica, raras figuras de animais e um número importante de grafismos puros. São também muito raras as composições representando ações, e as figuras sempre são representadas estáticas. Em alguns casos pode-se ter a impressão de se ver uma representação de uma caçada, mas o único indício visível é a proximidade pictural entre uma figura humana e um animal, não aparecendo gestos ou armas que permitam uma afirmação segura do tipo de ação desenvolvida. [...] a maior concentração de sítios acha-se na região do Agreste do Estado de Pernambuco. Sua existência tem sido até agora datada em 9.000 a. C., tendo uma dispersão muito grande em todo o Nordeste do país. As pesquisas arqueológicas fornecem informações que levaria a pensar que as etnias responsáveis por essa classe de figuras coexistiram com as etnias da Nordeste, sem marcar sua passagem no plano da cultura material. Teriam unicamente deixado os traços de sua identidade nas representações rupestres. (PESSIS; GUIDON, 1992)


Bonecões típicos da Tradição Agreste. Sítio Toca da Entrada do Baixão da Vaca. PI.

Porém, tem-se observado em diversos sítios arqueológicos do Agreste pernambucano que os “autores” de alguns painéis “descartaram” a representação de antropomorfos e zoomorfos, preferindo representar o que Anne-Marie Pessis denomina como grafismos puros que são na verdade círculos, quadrados, retângulos, espirais, linhas sinuosas, em ziguezague, tridáctilos, e outros elementos denominados pela nossa cultura como desenhos geométricos. Jamais saberemos o que possivelmente poderiam representar tais grafismos, visto que nosso mundo sensível e simbólico é muito distinto e recuado no tempo e espaço daquele no qual viveram aquelas etnias pré-históricas.

Outros arqueólogos defendem que as possíveis representações de grafismos puros podem ter sido obtidas através da ingestão de plantas alucinógenas, que são práticas comuns em rituais e cerimônias dos índios contemporâneos. O que mais impressiona é que as representações de grafismos puros são encontradas em sítios arqueológicos de todo o planeta. Obviamente não podemos aceitar a hipótese de que havia um universo simbólico comum a todos os povos pré-históricos dispersos geograficamente, visto que uma representação de um círculo não pode ter o mesmo sentido para várias etnias, vivendo tempos e realidades diferentes.



Na sua versão mais característica, as figuras da Tradição Agreste aparecem isoladas ou formando pequenos conjuntos dominados por uma ou duas grandes figuras antropomorfas (ditas “bonecões”), eventualmente rodeadas por poucos grafismos zoomorfos ou pinturas carimbadas na parede – inclusive impressões de mãos – e conjuntos de pontos. Homens e animais são geralmente desenhados toscamente, mas apresentam detalhes característicos, como a cabeça radiada e pés representados de maneira bastante naturalista (figuras humanas), sendo as articulações do cotovelo e do joelho marcadas por círculos. (PROUS, 2007)


Em toda região Agreste são encontradas muitas pinturas rupestres com maior domínio da Tradição Agreste, provavelmente esta área geográfica apresenta mais sítios por serem descobertos, visto que a região é cortada pelo Planalto da Borborema cortado por bacias hidrográficas importantes e longas, tendo em suas divisas de águas tendentes, vários complexos de serras que se caracteriza por muitos afloramentos rochosos, se prestando, em muitos pontos para acampamentos aos povos pré-históricos. Em quase todas as cidades situadas nessa área definida geograficamente temos sítios arqueológicos com pinturas rupestres: Agrestina, Altinho, Belo Jardim, Bezerros, Bom Jardim, Bonito, Brejo da Madre de Deus, Caruaru, Cupira, Gravatá, Ibirajuba, Jataúba, Jurema, Panelas, Santa Cruz do Capibaribe, São Caetano, Tacaimbó, Taquaritinga do Norte, Toritama, Vertentes, etc. Contudo, as pesquisas nestes locais são preliminares e exigem mais estudos sistemáticos para se compreender melhor o enclave arqueológico desta região.

Em toda região Agreste são encontradas muitas pinturas rupestres com maior domínio da Tradição Agreste, provavelmente esta área geográfica apresenta mais sítios por serem descobertos, visto que a região é cortada pelo Planalto da Borborema cortado por bacias hidrográficas importantes e longas, tendo em suas divisas de águas tendentes, vários complexos de serras que se caracteriza por muitos afloramentos rochosos, se prestando, em muitos pontos para acampamentos aos povos pré-históricos. Em quase todas as cidades situadas nessa área definida geograficamente temos sítios arqueológicos com pinturas rupestres: Agrestina, Altinho, Belo Jardim, Bezerros, Bom Jardim, Bonito, Brejo da Madre de Deus, Caruaru, Cupira, Gravatá, Ibirajuba, Jataúba, Jurema, Panelas, Santa Cruz do Capibaribe, São Caetano, Tacaimbó, Taquaritinga do Norte, Toritama, Vertentes, etc. Contudo, as pesquisas nestes locais são preliminares e exigem mais estudos sistemáticos para se compreender melhor o enclave arqueológico desta região.

terça-feira, 15 de junho de 2010

A tradição Nordeste

A classificação dos registros rupestres em Tradição Nordeste é uma definição criada por Niède Guidon, para aos grafismos característicos da região do Parque Nacional Serra da Capivara, no estado do Piauí. Naquele existem hoje catalogados mais ou menos 370 abrigos sob rocha que foram “decorados” com pinturas e gravuras rupestres por milênios, contudo a concentração de sítios com pinturas são maioria. A nomenclatura Tradição Nordeste foi homenageando a região brasileira, devido à maior concentração de registros rupestres. Porém, aparecem noutras regiões do Brasil os mesmos tipos. Não deixa de ser uma supervalorização dos estudos naquele estado.
São definidas de Nordestes as figuras esquemáticas e emblemáticas de antropomorfos, zoomorfos e fitomorfos que apresentam a ideia de movimento, como se as representações estivessem numa intensa mobilidade.


Cena de uma possível caçada ao tatu. Sítio Boqueirão da Pedra Furada, PI.

A tradição Nordeste foi a mais representada, caracterizando-se pela presença de figuras humanas e de animais, bem como de objetos e plantas. Essas figuras compõem ações que se referem a técnicas de subsistência, atividades cotidianas e cerimoniais. [...] A tradição Nordeste tem a peculiaridade de ser extremamente narrativa, com a representação de diferentes aspectos da vida cotidiana do grupo que a elaborou. As pinturas indicam que caçavam com diversos instrumentos: o veado era perseguido com tacapes, a onça era atacada utilizando-se propulsores e azagaias, o tatu era caçado a mão e abatido com golpes de tacape ou pego pelo rabo. Não existe nenhuma indicação de uso de arco e flechas, [...]. Foram também representados vários ornamentos relacionados com ritos de hierarquia. São cocares e máscaras que aparecem em cenas em que as pessoas estão dançando. (GASPAR, 2003)

Os arqueólogos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM) têm realizado um trabalho sistemático sobre os registros rupestres espalhados pelo Nordeste brasileiro, até o momento todos são unânimes na aceitação de que a Tradição Nordeste representa uma primeira pré-escrita ou forma de comunicação que dá preferência a narratividade das cenas cotidianas dos grupos étnicos que habitaram o Nordeste do Brasil. Outra característica dos registros rupestres encontrados na região Nordeste é a preferência na representação de antropomorfos, no Velho Mundo, por exemplo, a prioridade da arte rupestre são os zoomorfos.


Possíveis representações de cópula sexual. Sítio Boqueirão da Pedra Furada, PI.

A tradição de pintura chamada Nordeste é a mais representada e se caracteriza pela presença, em proporções praticamente iguais, de figuras humanas e animais; as representações de objetos e plantas são menos freqüentes. Os grafismos puros, aqueles desprovidos de traços que permitam identificá-los com uma representação material de nosso universo sensível, são minoritários. O traço marcante da tradição é o fato de que esses grafismos podem estar agenciados, representando ações. Os temas dessas ações podem ser reconhecidos, na maioria dos casos, estando ligados a técnicas de subsistência e atividades cotidianas ou cerimoniais. [...] O apogeu das obras rupestres da tradição Nordeste ocorre por volta de 10 mil anos atrás, coincidindo com o mais alto grau da qualidade técnica da indústria de pedra lascada na região. A evolução do primeiro período se manifesta em uma diversificação temática e em uma complexidade dos agenciamentos na representação de ações. [...] assim, no primeiro período, as representações de atividades de caça comportam duas figuras, o caçador e o animal, e as representações sexuais têm dois parceiros; ao passo que, no apogeu da tradição, esses mesmos temas são representados com a participação de um maior número de pessoas. (PESSIS; GUIDON, 1992)


Para a comunidade científica do sul do país, sobretudo, de Minas Gerais e São Paulo, a antiguidade dos grafismos da Tradição Nordeste são muito questionadas devido a sua datação ser muito remota em comparação com as demais tradições que são encontradas no interior do Brasil. Porém, sobre a representatividade e funcionalidade dos grafismos rupestres desta tradição são consensuais.


Cervídeos em movimento, provavelmente sendo caçados visto que os antropomorfos estão carregando propulsores. Sítio Toca do Pajaú, PI.

Encontram-se cenas de sexo (cópula em várias posições, masturbação), de execução, de caça e de rituais ao redor de uma árvore. Algumas dessas cenas estão sendo interpretadas por alguns pesquisadores à luz dos rituais dos atuais índios Fulnió: a árvore poderia ser a Jurema, que fornece uma substância alucinógena; as cenas de “masturbação” seriam, na verdade, flagelação ritual do pênis com uma planta urticante etc. As representações zoomorfas incluem um grande número de emas e de cervídeos, isolados ou correndo em bando; em alguns abrigos aparecem porcos-do-mato, quatis e até caranguejos de água doce. A tradição Nordeste estendeu-se num vasto território que vai do sul do Piauí até o Mato Grosso, passando por Goiás, infiltrando-se tardiamente me parte do território mineiro. A oeste, chega até o pé dos Andes – na Bolívia, no Peru e na Colômbia Meridional. (PROUS, 2007)


A região Amazônica apresenta muitos registros rupestres, contudo, as pesquisas naquela região ainda são preliminares e estão no início, visto que a região da Amazônia compreende a maior área geográfica do país.
Admite-se que as primeiras manifestações da Tradição Nordeste iniciaram-se por volta de 12.000 anos antes do presente e pararam de ser representadas por volta de 7 – 6.000 anos atrás. Com a interrupção dos registros rupestres da Tradição Nordeste surge às primeiras manifestações da Tradição Agreste.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

O povoamento da América do Sul


Antes de falar sobre o que indica o título acima, precisamos voltar ainda ao assunto das discórdias entre os arqueólogos dos EUA e da América do Sul. Vejamos: o principal questionamento de diversos arqueólogos sul-americanos é sobre a limitação do tempo imposto pelo Sítio Clóvis.
Porém, novas descobertas arqueológicas noutras regiões, principalmente na América do Sul, sugerem que os sítios de cultura Clóvis não foram os pioneiros na ocupação do continente americano.
Esses novos achados foram obtidos pelos arqueólogos denominados de pré-clovistas, ou pré-Clóvis. Vale salientar que os pares pré-clóvis não formam uma corrente homogênea, existem arqueólogos que defendem que o povoamento das Américas é anterior a cultura Clóvis em no máximo 2 mil anos, neste caso a ocupação do continente se situaria não em 11 e 12, mas entre 13 a 14 mil anos atrás. Ademais há outros pré-clovistas que recuam bastante a colonização do continente em até 50 mil anos. Não obstante, os norte-americanos são relutantes em aceitar os dados arqueológicos e tampouco as datações obtidas por carbono 14, criticando as evidências e teorias apresentadas, contestando-as como dados inconclusivos, “contaminações” de solo, área de escavação deturpada entre outras acusações desmedidas. Para Meggers (1979) nenhum dos achados relacionados a datas que excederam 24.000 anos têm sido universamente aceitos pelos arqueólogos.

Clovistas ferrenhos recusam-se até mesmo a examinar com seriedade qualquer possibilidade de que poderia ter havido humanos no continente americano antes dos fatídicos 11,4 mil anos que marcam o início da cultura Clóvis na América do Norte. (NEVES, 2008).

Todavia, novos achados arqueológicos obtidos pela corrente pré-clóvis tem acalentado ainda mais o debate sobre o povoamento das Américas. Segundo Betty Meggers (1979) Em Tlapacoya, México, instrumentos lascados associados com a fauna extinta foram datados pelo Carbono – 14 entre 24.000 ± 500[1] e 22.000 ± 2.600 anos passados.
Como já afirmamos, muitos arqueólogos sul-americanos aventaram a possibilidade de povoamento do Novo Mundo por travessia marítima. Vejamos o que falam os pesquisadores, a partir dos resultados obtidos com as datações e novas análises em fotos de satélites, além do uso de tecnologias avançadas.
A arqueóloga brasileira Niède Guidon (que está a serviço do Centro de Altos Estudos da Sorbone) defende que o homem navega a mais de 800 mil anos, o que segundo ela, seria admissível que o homem chegou às Américas por navegação via oceano Pacífico. A pesquisadora se baseia na ocupação da Ilha de Flores, na Indonésia.
Porém, o pesquisador da USP Walter Neves refuta tal teoria utilizando-se como fundamento a ausência de sítios arqueológicos e vestígios de ocupação nas Ilhas Polinésias. Ainda Segundo Walter, as datações destas ilhas não chegam a 4 mil anos, o que inviabiliza a teoria a ocupação de uma datação tão antiga. Mas, achados arqueológicos na Austrália comprovam a existência da presença humana naquele país a pelo menos 50 mil anos o que possibilita a teoria do povoamento das Américas por técnicas de navegação plausível. É notório que só se aporta na Austrália, naqueles tempos, por travessia marítima.
A tese da professora Niède Guidon, neste caso, não pode ser descartada.
Porém, para corroborar com os questionamentos, alguns arqueólogos, inclusive norte-americanos, que realizaram descobertas de sítios arqueológicos na América do Sul com datações anteriores a cultura Clóvis.
Para a arqueóloga norte-americana Ana Roosevelt a ocupação do continente americano foi realizada unicamente por Bering e sua dispersão no sentido Norte/Sul. Ela conclui, [...] assentaram-se primeiramente nos planaltos Norte Americanos (há cerca de 11.500 anos) [...] chegaram aos Andes por volta de 10.500 anos AP. [...] a colonização completa até o extremo da América do Sul foi datada em torno de 10 mil anos atrás.
Na floresta amazônica, Anna Roosevelt fez uma descoberta que abalou a comunidade científica norte-americana, o abrigo sob rocha pedra pintada, localizado nas imediações de Monte Alegre/PA, apresentou o seguinte quadro:

Foram feitas 56 datações radiocarbônicas a partir de restos de vegetais carbonizados, revelando uma antiguidade entre 11.200 e 10 mil anos atrás e 13 datações de termoluminescência em líticos e sedimentos, que indicaram uma idade pertencente ao pleistoceno tardio, contemporânea dos paleoíndios norte-americanos. (ROOSEVELT, 2000)

Essas evidências põem ainda mais em dúvida o modelo de ocupação Clóvis. Se os primeiros americanos entraram unicamente pelo Estreito de Bering porque existem sítios arqueológicos na América Central e América do Sul com datações em muito mais recuadas que a cultura Clóvis?
André Prous, (2000) arqueólogo da UFMG fez descobertas valiosíssimas na região de Minas Gerais, contudo ele é prudente em aceitar datações anteriores há 12 mil anos. Ainda segundo Prous, embora tenha sido encontrado um instrumento de pedra, que pela datação associada, obteve 20 mil anos a 15 mil anos no Sítio da Lapa Vermelha, este achado isolado para ele, como todos os outros indícios datados de mais de 12 mil anos no Brasil, é de difícil interpretação. Prous segue a mesma linha de raciocínio da Escola Americana, apesar dele ser Francês, ele descartou a datação devido a uma amostra de instrumento lítico encontrada sem correlação com outras evidências de cultura material que comprovassem a antiguidade do artefato. André Prous (2000) continua: A presença humana em Minas Gerais (e no Brasil) só é claramente atestada a partir de um período datado entre 11 mil e 12 mil anos atrás.
Outro sítio pré-histórico que desperta a revisão da teoria Clóvis é o de Monte Verde, no Sul do Chile, cuja datação é de 12.500 anos Antes do Presente.
 Segundo Anne-Marie Pessis (2000) [...] Monte Verde permite afirmar que grupos humanos habitavam essa região há 33 mil anos.
Para Walter Neves (2008) [...] o homem estava mesmo presente em Monte Verde havia pelo menos 12,3 mil anos.
No entanto, os pré-clovistas não são consensuais, embora as datações de um mesmo sítio assegurem seqüências estratigráficas confiáveis alguns arqueólogos são comedidos em datações muito recuadas. Monte Verde, no Chile, fica localizado nas proximidades de um riacho, foi escavado pelo arqueólogo norte-americano Dilehay (o maior crítico das pesquisas de Niède Guidon, na Serra da Capivara/PI), e as suas pesquisas encontraram diversos vestígios de uma cultura material muito distinta da cultura Clóvis, o que reforça a hipótese de diversas e sucessivas ocupações pleistocênicas do continente Americano.
Outro sítio localizado na região centro-oeste do Brasil põe em crise a teoria Clóvis, trata-se do sítio Santa Elina, localizado a 100 quilômetros ao noroeste de Cuiabá, capital do Estado do Mato Grosso. Santa Elina é um abrigo sob rocha próximo a Serra das Araras, nas coordenadas geográficas 15° 27’ 175” de latitude Sul e 56° 46’ 915” de longitude Oeste. Tem milhares de vestígios de sucessivas ocupações pré-históricas em milhares de anos. O sítio foi descoberto na década de 1980 e começou a ser escavado por uma equipe de Arqueólogos franceses liderados pelo casal Águeda Vilhena Vialou e Denis Vialou em 1984, e desde então foram mais de 15 anos de escavações que renderam muitas descobertas. A equipe de arqueólogos fez sucessivas escavações numa área total de 40 metros de comprimento e 5 metros de profundidade demonstrando que a ocupação do abrigo a partir de 3,50 m é do período pleistocênico.

Nesse espaço estreito de “moradia”, Santa Elina oferece condições bastante favoráveis a instalações duradouras: abrigo com proteção total das intempéries, razão pela qual, vestígios de fauna e de flora ficaram tão bem conservados, proximidade de fonte de água e posição estratégica importante, dominando o vale, o que é notável tanto para o conforto da habitação como para a subsistência do grupo pela facilidade de espreitar a caça.
Oito mil peças foram recolhidas e inventariadas. Correspondem em sua grande maioria ao material lítico, pedras lascadas no intuito de fabrico de utensílios ou plaquetas de hematita para a confecção de bastões e pigmentos para corantes. Alguns outros vestígios estão presentes, como os adornos vegetais, mas não chegam a ter uma representatividade importante em relação ao lítico. Foram também inventariados numerosos restos faunísticos, cuja grande parte corresponde a mais de 9 mil osteodermos da preguiça-terrícola ou gigante, megafauna extinta, presença essa bastante excepcional em sítios pré-históricos. (VIALOU, 2005).
                                                                                   
Santa Elina tem causado muita polêmica na comunidade científica devido a suas datações, a cronoestratigrafia que demonstrou seqüências de níveis arqueológicos não contaminados, tampouco, alterados estratigraficamente, porém na camada de 5 metros de profundidade obteve-se uma datação de 30 mil anos Antes do Presente. Contudo nesta camada não foi encontrada nenhuma evidência de vestígios materiais antrópicos. Neste mesmo sítio foram encontrados fósseis de megafauna, sobretudo, de uma preguiça-terrícola Glossotherium associados a refugos (vestígios diversos de lítico) de origem humana. Um achado tem colocado Santa Elina na lista dos sítios arqueológicos mais antigos das Américas, pedaços de pele óssea, talhados como pingente.

Um dos osteodermos[2] foi transformado em adorno pelo homem que morou ou passou pelo abrigo deixando como testemunhos de suas atividades uma centena de lascas e dezenas de utensílios em calcário e em sílex. Não só é fundamental a constatação da contemporaneidade do homem com essa fauna extinta, num solo datado em torno de 25 mil anos, como sua convivência com a preguiça gigante num mesmo espaço habitacional e sua intervenção, que permitem transformar um de seus milhares de ossículos em um pingente, por abrasões nas duas faces desse osso de 2,2 cm de comprimento e de orifícios simetricamente opostos em suas extremidades. (VIALOU, 2005).

Outros indícios são indicadores da presença contemporânea no sítio de megafauna com seres humanos, restos de instrumentos líticos, ósseos e carvões confirmam a seqüência estratigráfica sem nenhuma alteração no solo. Todos estes indicadores foram datados por métodos convencionais, como o carbono 14.
O sítio arqueológico mais polêmico da atualidade é sem dúvida o Boqueirão da Pedra Furada que fica na área do Parque Nacional Serra da Capivara, no sudoeste do Piauí. Único parque de proteção do semi-árido com vegetação de caatinga. O Parque Nacional Serra da Capivara possui uma área de 130 mil hectares e compreende os municípios de São Raimundo Nonato, Coronel José Dias, São João do Piauí e Canto do Buriti. Possui a maior concentração de espécies animais do clima semi-árido.
Além disso, a região do Parque dispõe de três conjuntos geomorfológicos: a oeste, as chapadas; a leste, planícies e no centro as cuestas. Estas formas de relevo forneceram milhares de abrigos sob rocha ao homem pré-histórico, atenuando o acesso a reservatórios d’água naturais. A caatinga é o bioma dominante em toda a área do Parque Nacional, contudo, nas áreas mais baixas das chapadas onde correm pequenos riachos e ainda existem árvores mais altas que são resquícios do clima tropical-úmido do passado. Supõe-se que a 50 mil anos toda a área do Parque Nacional era ocupada por vegetações típicas de clima tropical-úmido e as planícies era uma extensa savana. A fauna era composta por mastodontes, preguiças e tatus gigantes. Que as evidências arqueológicas corroboram a contemporaneidade com o homem pré-histórico. Acredita-se que a transição do clima de tropical-úmido para um clima mais árido ocorreu por volta de 12 mil anos atrás, as fontes de águas se tornaram mais raras, promovendo supostamente a extinção dos animais de grande porte (megafauna). Contudo, os animais de pequeno porte e os humanos se adaptaram melhor as alterações climáticas.
Segundo os estudos feitos por várias equipes da Fundação do Homem Americano e que podemos encontrar nas referências aqui apresentadas, pode-se afirmar que a região do Parque Nacional é composta de rochas sedimentares que foram se formando a partir da sedimentação do oceano que antes formava o relevo da região. O arenito e calcário são mais comuns, apesar de possuírem a mesma formação geológica são bem distintos. O arenito foi formado a mais de 400 milhões de anos e é composto com grãos de quartzo, mais apresenta também uma fração de óxido de ferro, que foi gerado pela impregnação de águas das chuvas. A paisagem do Parque é formada por serras, chapadas, boqueirões e baixões que foram moldadas pelas ações do vento, chuvas, sol, calor e frio (os intemperismos).

A toca do Boqueirão da Pedra Furada forma um abrigo sob-rocha de grandes dimensões, com 75 metros de altura aproximadamente e, uma largura de 70 metros, aberto ao sul, situado no sopé de cuesta arenítica e em frente à planície pré-cambriana. As paredes do abrigo estão cobertas de pinturas pertencentes a períodos diferentes das tradições Nordeste e Agreste que totalizam mais de mil grafismos, mas que significam apenas os restos de painéis rupestres que deviam ser muito superiores em número de registros gráficos. Além da ampla plataforma, que permite o assentamento de um expressivo número de indivíduos, o abrigo apresenta, no lado esquerdo, um boqueirão que recebe diretamente a água da chuva que escorre por uma chaminé escavada na rocha, e que pode armazenar aproximadamente 7.000 litros d’água. (MARTIN, 2005).

O sítio arqueológico Boqueirão da Pedra Furada apresenta a maior concentração de pinturas rupestres do mundo, alguns painéis com pinturas caíram do bloco original no solo do abrigo junto de fogueiras que foram datadas por carbono – 14 em 17 mil anos antes do presente, contudo, nas camadas inferiores alguns artefatos líticos associados a fogueiras apresentam as datações mais antigas das Américas, entre 39 mil a 48 mil anos Antes do Presente.
Essas descobertas foram apresentadas como tese de Doutorado pelo arqueólogo italiano Fábio Parenti em 1993 na capital francesa. Fábio defendeu que os artefatos líticos encontrados nas camadas inferiores do sítio são indubitavelmente instrumentos de origem antrópica. Os instrumentos líticos foram confeccionados em pequenos seixos de quartzo e quartzito, matérias-primas exógenas, visto que o abrigo é de arenito, ele conclui que não há como questionar que estes artefatos foram trazidos de outros lugares pelos agrupamentos pré-históricos que habitaram aquele abrigo há 50 mil anos atrás. O Boqueirão da Pedra Furada foi escavado entre os períodos de 1978 a 1998, 20 anos de estudos.
Em 1982, duas datações de 25 mil anos foram obtidas de amostras retiradas de níveis arqueológicos, estimulando ainda mais a prospecção de uma área mais profunda. Dois anos mais tarde num nível sedimentar mais baixo foram obtidas mais datações em torno de 31 mil anos atrás. Em 1987 em camadas estratigráficas mais baixas ainda foi confirmada a seqüência cronoestratigráfica de várias amostras datadas em 39 mil anos. Noutra camada de sedimentos foi obtida uma datação de 50 mil anos. O sítio proporcionou uma seqüência de datações de 6 mil anos à 48 mil anos Antes do Presente.
A cronoestratigrafia confirma as sucessivas ocupações do sítio, porém, para os Clovistas as datações são suspeitas, até mesmo as amostras que foram defendidas por Fábio Parenti em seu Doutorado são postas em dúvidas se realmente possuem origem antrópica. Contudo, Niède rebate as críticas de alguns arqueólogos (as), sobretudo norte-americanos, refutando a possibilidade daquela fogueira ter sido acesa por um incêndio natural, ela continua: se tivesse ocorrido um incêndio de origem natural naquele abrigo o mesmo seria estendido para todo o abrigo e não apenas para um aglomerado de seixo ordenados deliberadamente por seres humanos.
O “embate científico” parece não ter fim. As evidências arqueológicas encontradas em diversos sítios da América Central e do Sul suscitam a construção e aceitação de novos modelos de ocupação do Continente Americano, às evidências são claras, as datações foram obtidas pelos mesmos laboratórios que dataram a cultura Clóvis. Ou todos os arqueólogos que fizeram descobertas de habitações pleistocênicas estão errados ou o modelo Clóvis está superado.
Como proposta da dispersão humana aqui na América do Sul, a pesquisadora Niède e responsável pelo projeto, apresenta uma migração para o Brasil, que ainda precisa ser confirmada. Ao mesmo, não tem respostas para dizer de onde vieram os grupos humanos que habitaram o sudeste do Piauí.

Considerando-se que até um metro abaixo de camada datada de 48 mil anos ainda havia material arqueológico, pode-se afirmar que a área arqueológica de São Raimundo Nonato foi ocupada pelo homem desde há cerca de 60 mil anos. [...] Em síntese pode-se admitir que, penetrando no país por uma via ainda desconhecida, grupos humanos chegaram até o sudeste do Piauí há cerca de 60 mil anos. O sul de Minas Gerais estaria povoado por volta de 30 mil anos atrás, e no sul do Brasil grupos humanos estariam estabelecidos há pelo menos 15 mil anos. (GUIDON, 1992).


[1] Significa a margem de erro: assim a data pode ser 500 anos para ou para menos. Diante do número 24 mil, 500 é considerado insignificante, mas 2.600 para 22 mil anos é considerada alta a margem de erro.
[2] Relativo aos animais que tem a pela dura, em forma de placas ósseas.