domingo, 19 de novembro de 2017

Filosofia da estética (aula de revisão)


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Ética e moral



           Ética e moral são os valores mais desejados para a consolidação de uma vida plena, harmoniosa e feliz. Em outras palavras, a convivência humana para ser prazerosa e pacífica as pessoas necessitam guiar-se – desejavelmente e impreterivelmente – por esses valores nobres. Mas afinal, o que são valores? O que é ética e moral? Ética e moral são a mesma coisa? Por que as pessoas – em nosso país – desprezam tanto os valores éticos e morais? Essas e outras questões serão analisadas neste texto do ponto de vista histórico e filosófico. Vale salientar que essa temática não é simples e de fácil compreensão devido as mudanças que os valores éticos e morais assumem no decorrer do tempo histórico.

            O que são valores? Segundo as filósofas Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins é “O que deve ser objeto de referência ou de escolha” [...] “é o que vale” [...] “Ser desejável ou desejado”. Conforme exposto, os valores devem ser motivo de referência para as nossas vidas, pois os valores são transmitidos pela família, sociedade, comunidade, etnia, país e cultura na qual estamos inseridos. Os valores são legados pelas gerações pretéritas e servem de modelos para nos comportamos – principalmente – da melhor maneira possível em nossa sociedade. Os valores variam de cultura para cultura e também no tempo e espaço geográfico. Isso significa que não existem valores inamovíveis, invariáveis, cristalizados, em geral, são transformados pelo tempo histórico. Em resumo, podemos arriscar em dizer que os valores são aquilo que conferimos enorme importância. Alguns exemplos de valores: justiça, honestidade, respeito, caráter, alteridade, empatia e etc. Ética e moral são valores e como muitos filósofos destacam: são valores nobres.

           O nosso país é categorizado como de terceiro mundo e em desenvolvimento, apesar de estarmos entre as dez maiores economias do mundo, temos inúmeros problemas de ordem social e econômica. Uma das maiores fragilidades da população brasileira – sem sombra de dúvida – é o desrespeito, desprezo e desdém pelos valores éticos e morais. Sociedades mais avançadas como os países de primeiro mundo e desenvolvidos como Japão, Coréia do Sul, França, Inglaterra, Alemanha e EUA não possuem índices elevados de desigualdade social e econômica como os nossos. O reflexo desse crescimento econômico produz efeitos e alcança a sociedade sob a forma de educação de qualidade, IDH desejável, infraestrutura satisfatória e ausência ou índices baixíssimos de desigualdade social. A soma desses e outros fatores culmina na construção de uma sociedade mais ética. Estudos demonstram que os valores éticos e morais são mais elevados em sociedades com boas estruturas sociais e econômicas. Além da predominância da ética como parâmetro para a convivência humana, as pessoas desses países respeitam mais as legislações e normas estabelecidas pelos governos, famílias, comunidades e qualquer outra organização social. Mas, o que é a moral?

            A moral consiste nos costumes de um determinado grupo humano. Quando nascemos vamos aos poucos nos familiarizando e adequando-se com a moral de nossa comunidade. A moral é também definida como as regras de conduta, legislações, princípios norteadores e parâmetros estabelecidos pelo grupo. Vale destacar que a moral é externa ao indivíduo, em geral, não cabe ao indivíduo definir o que pode e não pode, mas a coletividade é quem determina as exigências a serem seguidas pelo ser. Podemos inferir que os reais objetivos da moral consistem em ordenar e organizar a vida em sociedade. Façamos agora as seguintes reflexões: imaginem se as pessoas quisessem fazer o que bem entendessem em suas vidas? Como seria a vida em uma sociedade sem a manutenção de regras? A resposta seria: um caos, uma desordem. Podemos traduzir a moral como um princípio para reger de forma harmoniosa a sociedade ou controlar a vida social como os regimes totalitários e despóticos revelados pela História. Alguns exemplos de moral: horários, semáforos, fardamentos, legislações, sistema penitenciário, preços, filas, placas indicativas, lixeiros, enfim, a moral está instituída em vários segmentos da sociedade. A moral está presente na família, em escolas, no trabalho, nas religiões, no trânsito, nos esportes, no campo, na zona urbana e em qualquer forma de organização social. Segundo o filósofo Clóvis de Barros Filho “As nossas sociedades são cada vez mais carentes de moral e necessitadas de repressão”. Isso ocorre em grande medida, pela omissão das pessoas em respeitar suas legislações. Como exemplo contundente, recentemente em nosso país algumas multas de trânsito foram elevadas monetariamente em razão dos altos índices de pessoas alcoolizadas conduzindo veículos e motocicletas de forma indevida. Essas e outras medidas, muitas vezes, são necessárias como tentativa de coibir os abusos de algumas pessoas. Mas, o que é ética?

            A palavra ética deriva do grego Ethos e significa morada, residência. Consiste também em costumes e, sobretudo, condução da vida. A ética se resume em tornar a convivência humana ainda melhor. Conforme exposto acima, sociedades com altos índices de desenvolvimento econômico, em geral, as atitudes éticas são mais presentes, perceptíveis e sentidas no cotidiano. A qualidade de vida – nestes lugares – é superior em razão de comportamentos mais éticos por parte de sua população. A ética, em alguns centros universitários, já é ensinada como ciência ou componente curricular de grande peso, isso só reforça e corrobora sua relevância social. A ética, podemos arriscar em dizer, é maior que a moral, pois a mesma faz críticas aos princípios morais estabelecendo uma análise sobre os parâmetros normativos de algumas sociedades. A atitude ética transubstancia-se de fato no agir eticamente, comportar-se apoiado (a) nas decisões mais justas e sábias possíveis, sem causar danos ou prejuízos as pessoas e a sociedade. Ser ético significa, antes de tudo, pensar no coletivo, no social, na manutenção plena de uma sociedade cada vez mais justa e reta. Três palavras são indissociáveis da ética: caráter, idoneidade e índole. Essas palavras significam agir com justiça, com prudência, com temperança e, na menor das hipóteses, pensar não apenas em si, mas na humanidade como um conjunto. Nossos pais, quando ainda somos jovens, com frequência nos repetem alguns discursos e um deles se resume em valores éticos: tenha vergonha na cara! Vergonha na cara significa, ter ética, fazer uma reflexão com muita profundidade sobre algumas de nossas faltas, erros e atitudes reprováveis e, quando passamos por essa ilação, estamos de fato, usando a ética como referência. Portanto, a ética é uma atitude, ação ou comportamento que deve partir de nosso interior, de dentro de nós, a partir de nossa consciência para agir com decência, aliás, decência significa também, agir eticamente. Ser ético (a), significa, antes de tudo, respeitar as outras pessoas – independentemente das suas diferenças –, ter empatia pelo próximo, ser altruísta em suas ações e comportar-se permeado pela alteridade. Portanto, ética se resume num modelo de conduta aceitável e desejado por todos.

Vimos ainda pouco que a moral consiste no cumprimento das exigências estabelecidas pelas sociedades. Por exemplo, jogar lixo na lixeira, a lixeira é a moral, nossa atitude consciente de jogar o lixo apenas na lixeira – independentemente de existir uma por perto – é uma manifestação da ética. Para guiar automóvel e motocicleta é necessário possuir habilitação (moral), ter consciência e refletir sobre não conduzir veículos automotores é uma atitude ética. Não fumar é uma instrução normativa, decidir se fumo ou não diante de pessoas não fumantes é um julgamento ético. A moral se reflete nas regras e, sobretudo, no cumprimento destas exigências, a ética se manifesta sob a forma de conscientização do agir. A moral é exterior, por ser definida pela sociedade; a ética é interior, deve partir de nossa consciência de justo e injusto, certo e errado, devo ou não devo, posso ou não posso, enfim, consiste na pura ação norteada pela prudência e pelas boas maneiras que aprendemos com as pessoas cautas.

Os termos ética e moral podem ser semelhantes, mas assumem posturas diferentes nas sociedades. Cada um age conforme suas peculiaridades, seus atributos e inerências. Em resumo, ética e moral são formas distintas de comportar-se socialmente e não resta a menor dúvida que são de extrema importância para a construção de sociedades mais fortes, pacíficas e com índices elevados de qualidade de vida. Para a existência de sociedades mais éticas é necessário o respeito a moral e ao comportamento – de fato – ético. Apenas assim podemos nos aproximar da definição de humanidade. Humanidade significa agir humanamente e, ser humano, consiste em agir racionalmente e prudentemente diante do coletivo, só assim atingiremos o ápice de uma convivência profícua e digna de seres humanos, seres que pensam.



REFERÊNCIAS:

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de filosofia. 3ª edição – São Paulo: Editora Moderna, 2005.

CHAUÍ, Marilena. Iniciação à filosofia. 2ª edição – São Paulo: Editora Moderna, 2013.

FILHO, Clóvis de Barros. Educação, moral e ética. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=U2sdHjPKcKQ

Acesso em 06/11/2017.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Aprender a filosofar



            Que é filosofia? Para que serve a filosofia? Qual a importância da filosofia para minha vida? O que ganho estudando filosofia? Todos estes questionamentos brotam das pessoas que tem o primeiro contato com a “matéria”, “disciplina”, “ciência” ou qualquer outra definição do componente curricular filosofia oferecido no ensino médio. O ensino de filosofia é ofertado na Educação Básica apenas no ensino médio – na maioria das escolas – na etapa final de uma longa jornada educativa de nossa juventude. O ensino fundamental, como é notório, é a maior etapa educacional de nossas vidas, mas o componente curricular filosofia é inexistente ou foi removido do currículo escolar pelo Ministério da Educação ou Secretarias estaduais de Educação. Na Rede Pública Estadual de Pernambuco, a título de exemplo, o componente curricular filosofia inexiste no Ensino Fundamental e se resume a apenas uma aula semanal nas três séries do Ensino Médio. Em resumo, isso significa que o componente curricular é “irrelevante”, sem peso educativo ou oferece um “risco” ou “perigo” as (aos) estudantes deste país como pensam muitos (as) filósofos (as). Decerto o risco filosofia não é para a juventude, mas a soma deste ensino pode resultar na promoção, formação e emancipação de mentalidades das pessoas mais jovens em possibilitar formar seres, pessoas e indivíduos com olhares, pensamento e ações de cunho crítico é de fato um perigo, uma ameaça, mas não aos (as) jovens e sim, aos nossos representantes. Tornar os seres pensantes neste país parece que é um imenso risco bem comum, basta olhar o nível de prioridades nas políticas públicas deste país quando o assunto é educação.

            Quando leciono filosofia nas séries iniciais do ensino médio repito com frequência a frase kantiana: “Ninguém aprende filosofia, o que se aprende é a filosofar”! Os (as) estudantes ficam atônitos (as) diante desta assertiva, como assim não aprenderemos filosofia? Na medida que as aulas prosseguem a maioria percebe que a filosofia não é um saber pronto, acabado, com definições estáveis, cristalizadas e indiscutíveis. Além disso, filosofia não é algo que se refere unicamente a vida estudantil, a carreira escolar. Qualquer ser pode filosofar, independentemente do nível educacional, da questão socioeconômica, da formação cultural, da localização geográfica, enfim, isso significa que o ato de filosofar é acessível a qualquer ser, desde que este ser deseje se imiscuir com as benesses que a filosofia promove.

            Etimologicamente, a palavra filosofia significa amor a sabedoria. Amar a sabedoria, o conhecimento, a busca por respostas racionais, a curiosidade por saberes e o rompimento com a obviedade aparente das respostas imediatas e instantâneas. Neste caso, a filosofia não é uma ciência, pois as ciências têm objetos específicos de investigação, por exemplo, o oftalmologista estuda a visão, o veterinário cuida da “saúde” dos animais. A filosofia não tem objeto específico, ela investiga as produções humanas, as concepções de mundo, o que os humanos fazem, constroem, pensam e imaginam. Sócrates, filósofo ateniense foi considerado o precursor dessa “nova” maneira de enxergar e perceber as coisas que envolviam os seres humanos, a ele foi atribuída a seguinte frase: “sábio é aquele que conhece os limites da sua própria ignorância”. Sabedoria para Sócrates é ser humilde, simples e reconhecer que todo o conhecimento acumulado em nossas vidas será insignificante, insatisfatório, limitado. A filosofia está em todos os lugares, não há tempo específico para sua existência – excetuando-se o seu aparecimento na Grécia antiga no século VI a. C. – ela permanece viva, atuante e “incomodando” muitas pessoas até hoje. A filosofia não possui vida própria, ela toma forma e se materializa a partir da observância e discussão de assuntos cotidianos, banais e do dia a dia que envolve as pessoas. Desde assuntos banais até complexos. Começa no plano discursivo e dialético e consuma-se nas ações e atitudes comportamentais. Como já foi exposto, a área de atuação da filosofia se resume as realizações humanas, mas essas realizações são àquelas da banalidade. O propósito do conhecimento filosófico – se é que existe – concentra-se em promover a autonomia intelectual das pessoas, o desenvolvimento crítico nos seres, o aprimoramento da capacidade de percepção da realidade. Em outras palavras, o papel do conhecimento filosófico é induzir as pessoas a separarem o real do ilusório, romper as correntes da ignorância que muitos seres carregam sem perceber, indo mais distante, quebrando a alienação que muitos humanos vivem imersos. Nestes termos, filosofar é dar sentido à vida e existências, é dar prioridade a razão, a racionalidade, a inteligibilidade e acima de tudo, ampliar as consciências e reflexões humanas.

            Aprender a filosofar não é uma tarefa fácil e que se alcança de forma rápida, espontânea e célere. O ato de filosofar é fruto de uma prática exaustiva, rigorosa, laboriosa e que exige do ser um processo de maturação lento e de longo prazo. Para filosofar exige-se uma leitura de mundo mais eficiente, mas para lermos o mundo de modo mais objetivo é vital tornar a leitura da palavra um hábito constante e recorrente, assim como defendia Paulo Freire. Ler livros ou textos de autores clássicos e de filósofos (as) aguça o saber, desperta a curiosidade, aumenta o senso crítico, estimula e instiga a autonomia intelectual e racional do ser. Quando um humano se imiscui com o conhecimento filosófico – em geral – sua postura diante do mundo melhora, se torna um ser mais participativo, exigente e sai dos modelos e padrões instituídos pela nossa sociedade. É uma prática comum nas sociedades capitalistas tornar os seres humanos iguais, com hábitos em comum e, dessa forma, facilitar o processo de alienação e de consumo dos produtos capitalistas. Como seria menos danoso se o projeto capitalista se resumisse a apenas isso, mas vai além, tentam até mesmo controlar suas mentes, seus pensamentos e seus gostos através de vários aparatos, sobretudo, pela mídia, meios de comunicação e redes sociais. Aprender a filosofar insta os seres a se tornarem diferentes da massa padronizada, autênticos, genuínos e com vida própria. Libertando das amarras dos vícios, dos prazeres, das ilusões, das aparências e das ideologias dominantes que pairam sobre nós.

            Aprender a filosofar é um estímulo ao pensamento ordenado, organizado e sistemático, desenvolvendo a elucubração de problemas cotidianos e complexos, induzindo e priorizando a emancipação intelectual contra o comodismo, quietude e adormecimento das ideias. Quem não filosofa neste mundo vive com a mente anestesiada, estagnada, inerte e sem “vida” ou como em outros casos, a mente é um mero aparelho reprodutor de ideologias e modismos empregados por interesses particulares. O ato de filosofar, como foi exposto acima, é acessível a qualquer ser, mas para isso ocorrer o ser deve desenvolver uma atitude de estranhamento com o banal e cotidiano, deixando de enxergar a realidade como algo comum e imutável. Filosofar é, antes de tudo, uma maximização do uso da consciência, é o agigantamento e melhorias da capacidade intelectiva humana.

Para finalizar, aprender a filosofar é uma necessidade diante do mundo que vivemos, cada vez mais hostil e difícil de se viver em razão dos seres perderem as “rédeas” de suas próprias consciências e reflexões caindo nas armadilhas “sedutoras” da ignorância, do orgulho, da intolerância e atos indesejáveis em nossa sociedade. A capacidade humana de pensar e agir de modo coerente e eficiente está perdendo espaço para a “soberania” do mundo virtual, do domínio e necessidades cada vez maiores das tecnologias, dos dispositivos eletrônicos assumindo tarefas que deviam ser nossas. A soma destes fatores gera uma sociedade dependente, alienada e com poucos estímulos ao pensamento racional. Resta-nos a alternativa de valorizar o ato de filosofar e tornar hábito procurar respostas e não se contentar somente nas primeiras explicações e elucidações que nos aparecem como salvadoras e redentoras. É preferível viver inquieto (a) do que viver imerso num mundo de certezas! Encerro este fragmento de consciência com a frase de Montesquieu: É necessário estudar muito para saber um pouco.