sábado, 3 de dezembro de 2011

Não nascemos prontos

    Recentemente, li um grande livro do filósofo Mário Sérgio Cortella, seu título: Não nascemos prontos – provocações filosóficas. Este livro possui como teor uma enormidade de provocações filosóficas que se traduzem na nossa realidade, sobretudo a brasileira. Não tenho interesse aqui de descrever ou fazer uma resenha sobre o livro, mas acalorar ainda mais a discussão sobre a temática, visto que, como professor e ser humano percebo a necessidade de realização de debates sobre o tema para fornecer mais subsídios àqueles que se consideram prontos. Contudo, este texto não pretende nem esgotar nem encerrar o tema, mas apenas contribuir com a problemática.

    Quem conhece ou já conheceu alguém que sempre estava com a verdade, com a razão ou sempre certo? Noutras palavras, quantas pessoas conhecemos cujo se consideram que já estão prontas? Quem nunca presenciou em conversas ou debates atos de intransigência, irredutibilidade ou arrogância por parte de algumas pessoas? O que há em comum nessas posturas, sem sombra de dúvidas, é o perfil de um ser que acredita que já está pronto.

    O ser humano é o animal que necessita ser educado para se tornar humano. Penso que não há dúvidas sobre essa afirmativa, pois, quando nascemos precisamos – acima de tudo – de nossos semelhantes para conviver, neste caso, somos também animais sociais como defendia Aristóteles. Desde o nascimento temos que aprender a conhecer as coisas deste mundo, coisas como falar, andar, comer e desenvolver – principalmente – a linguagem escrita e simbólica. Falar, andar, comer e aprender são verbos indissociáveis dos seres humanos, isso indica que antes de tudo, somos inacabados, falta sempre uma coisa para se contemplar o absoluto – se é que existe algo absoluto! O super-homem, mulher-maravilha são apenas mitos diante de nossa realidade que é de carne e osso ou de meros seres mortais, somos seres que quando isolados somos fadados à morte. Segundo Kant apud Comte-Sponville: Homem só pode tornar-se homem pela educação. [...] ele é apenas o que a educação faz dele. Se houver alguma dúvida ou refutação sobre a frase Kantiana, ainda não conheço, pois invariavelmente da cultura que o indivíduo nasça ele será iniciado conforme a educação do grupo, embora, algumas culturas ou países ocidentais se considerem superiores intelectualmente, humanamente ou tecnologicamente. Nas demais culturas, todas elas têm em comum a educação, independemente do conceito de educação de cada uma delas.

    Quem se considera inteligente é antes de tudo prepotente ou arrogante. Paulo Freire já alertava: não há um saber maior do que o outro há saberes diferentes. Segundo Mário Sérgio Cortella, O ser humano é tão arrogante que não admite ser chamado de animal. Outro dia, estava dando uma aula sobre o darwinismo e falei que nós humanos éramos mais uma espécie de animal no mundo, quando fui interpelado por uma estudante que disse: e nós somos animais, é? As pessoas que se consideram prontas devem acordar deste sono profundo que é a ignorância, lembro aqui que o emprego de ignorância não se refere a uma pessoa sem modos, sem educação, mas tão somente uma pessoa que ignora a sua própria realidade. Ainda segundo Cortella, ele diz que um ser arrogante é aquela pessoa que se considera pronta ou acabada.  Não estamos prontos nem mesmo próximos de nossa morte. Alguém pode inquirir: então quando estaremos prontos? Talvez jamais, repito aqui o que tenho falado em minhas aulas: nascemos, vivemos e morremos e jamais vamos saber o que é a humanidade, o planeta terra, nem mesmo de onde viemos.
A humildade pode ser considerada uma virtude, mas se a virtude pode ser ensinada, como creio, é mais pelo exemplo do que pelos livros (Comte-sponville). A humildade como sempre defendia o filósofo grego Sócrates era o reconhecimento de que nada sabemos, se utilizarmos essa lógica podemos nos perguntar: quão imenso e infinito é nosso universo, será que seremos capazes de desvendarmos o que é o universo? Quem somos nós? Ainda não possuímos uma resposta convincente sobre de onde viemos, quem somos e para onde vamos. Nem o mito, nem a religião, nem a filosofia e nem mesmo a ciência foram capazes de nos responder com exatidão a essas questões.
    
Se não sabemos quem somos, de onde viemos e para onde vamos, porque se considerar pessoas prontas ou acabadas? A título de exemplo, tenho mais de 300 alunos e conheço alguns que se consideram pessoas prontas, vou explicar o porquê. Estamos vivenciando o IV bimestre, a última unidade antes do término do ano letivo, tenho vários estudantes que já estão aprovados desde o III bimestre e tenho percebido que apenas alguns se consideram pessoas prontas, Por quê? Estes estudantes não estão mais frequentando as aulas, não estão participando das atividades escolares cotidianas, por quê? Acreditam que já estão prontas, acabadas, não existe mais necessidade de estudar no último bimestre, isso significa que a educação para estes já foi contemplada, obtida. Sabemos que nenhum saber é autossuficiente, absoluto ou completo. Existe outros casos semelhantes nos quais alguns estudantes creem que a conclusão do Ensino Médio já é o bastante e param de estudar. A meu ver, a educação é um aparato inerente ao ser humano e não pode ser desassociado dele, neste caso, desde o nosso nascimento até a nossa morte necessitamos incessantemente da educação.
    Por que se considerar uma pessoa como inteligente, sábia, completa se nenhuma das áreas de conhecimentos existentes foi esgotada? Nenhum conhecimento humano – até onde sei – foi atingido, encerrado e finalizado. O saber, o conhecimento e a audácia de procurar respostas são inesgotáveis. Muitas pessoas definem o conhecimento ou saber como a busca ou procura pela verdade, mas convenhamos, até hoje não se sabe o que é de fato a verdade. A medicina, por exemplo, nos surpreende diariamente com novas descobertas, as diversas ciências existentes – no mais das vezes – chocam a humanidade com suas descobertas, as revelações das diversas áreas de saberes ocorrem frequentemente e nunca acabam. Não temos nem convicção nem mesmo certeza do que seja o sol, por que se orgulhar de coisas que ainda não foram esgotadas? O planeta Terra ainda não foi desvendado nem há de ser encerrado pelas descobertas humanas, pois, a Terra é repleta de mistérios, segredos e muitos descobrimentos ainda estão por vir. Reconheçamos as nossas limitações no campo do conhecimento ou dos conhecimentos, se temos essa consciência por que admitir que sejamos sábios se os maiores sábios reconhecem que não sabem de quase nada!
Nascer sabendo é uma limitação porque obriga a apenas repetir e, nunca, a criar, inovar, refazer, modificar. Quanto mais se nasce pronto, mais refém do que já se sabe e, portanto, do passado; aprender sempre é o que mais impede que nos tornemos prisioneiros de situações que, por serem inéditas, não saberíamos enfrentar. [...] Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente nasce não-pronta, e vai se fazendo. (CORTELLA, 2010. p. 13)
    Sócrates foi um grande exemplo de simplicidade, humildade, prudência e consciência que jamais se considerou um sábio, as pessoas lhe atribuíam essa qualidade, mas Sócrates reconhecia suas limitações – por isso ele foi considerado um sábio –, esse sabia que o ser humano é falível, passível de erro e necessitado de respostas. Não somos infalíveis, muito pelo contrário, nossos atos, ações e comportamentos são falíveis e se temos essa sã consciência, isso significa que não estamos prontos nem agora nem talvez no futuro. E você, já está pronto?

2 comentários:

  1. Baixar o Documentário - A Origem do Homem - Dublado - Muitos cientistas acreditam que os primeiros seres humanos surgiram na África Oriental. Se isso for verdade, por que os humanos são encontrados em quase todos os lugares do mundo? http://mcaf.ee/a0ds4

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  2. É simples Bruna, os humanos migraram e paulatinamente povoaram os demais continentes. Saíram do continente africano e chegaram no Oriente médio, posteriormente, segundo datações por carbono 14, os humanos chegaram ao continente europeu por volta 800 mil e por último, no continente americano.

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