terça-feira, 3 de agosto de 2010

QUAL A UTILIDADE DA FILOSOFIA?


Não é fácil responder a esse questionamento. Para quem conhece, ou melhor, dizendo, pratica um pouco de filosofia deve saber que para a Filosofia não dá respostas concretas, definitivas, indissolúveis e inquestionáveis. Para solucionar esta indagação seria possível de antemão outra pergunta: o que é a utilidade?
            Promovi este debate mediante a posicionamentos e opiniões emitidas por muitos alunos do Ensino Médio que se perguntam com muita freqüência para que serve a filosofia? E muitos deles respondem: é uma disciplina chata; ninguém entende filosofia; é uma coisa de loucos (as); esses comentários são em decorrência do conceito de utilidade formulada pelos discentes. Útil é aquilo que tem uma finalidade prática; é aquilo que sabemos para que sirva. Ademais, para a maioria dos alunos do Ensino Médio a concepção de valor restringe-se a pergunta célebre: o que eu ganho com isso (filosofia)? Freqüentemente, os alunos só realizam as atividades do ano letivo mediante a seguinte pergunta: vale quantos pontos essa atividade? Ou vale nota? Porém, essas definições podem ser definidas como conceitos formulados pela sociedade capitalista, neoliberal e globalizada.

Em geral, essa pergunta costuma receber uma resposta irônica, conhecida dos estudantes de Filosofia: “A Filosofia é uma ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual”. Ou seja, a Filosofia não serve para nada. Por isso, se costuma chamar de “filósofo” alguém sempre distraído, com a cabeça no mundo da lua, pensando e dizendo coisas que ninguém entende e que são perfeitamente inúteis. (CHAUÍ, 2000)

            Atualmente, as pessoas estão atribuindo valores a bens materiais em detrimento do espiritual, digo que, os indivíduos supervalorizam seus automóveis, motocicletas, celulares, casas, equipamentos eletrônicos e vestimentas de modo que a sabedoria, neste caso a espiritualidade, fica descartada. Para algumas pessoas é mais válido possuir riqueza do que saber o que é a sociedade; é mais importante ir ao Shopping Center do que conhecer de maneira sábia o que é o mundo? Quem somos nós? De onde viemos? Para muitos, esses questionamento são atitudes de pessoas loucas, diferentes, radicais ou comunistas!
            A filosofia quando surgia no século VI a. C., na Grécia antiga, tinha o propósito de desvelar questões antes e jamais imaginadas pelos indivíduos. A civilização grega naquele período era explicada pelos mitos, de modo que ninguém ousaria em questionar. Com o aparecimento dos primeiros filósofos novas indagações fluíram pondo dúvidas sobre as explicações mitológicas, nascendo assim a filosofia. A filosofia no cerne de seu nascimento era uma maneira nova de pensar a realidade, sobretudo, todos os fenômenos naturais e humanos a partir da razão, que naquele tempo era definida como lógica. Segundo Gianfranco Morra (2001) A lógica ensina as formas do raciocínio; a filosofia enquanto lógica ensina a bem raciocinar. Mas esta arte pode ser usada com fins benéficos ou maléficos.
            A concepção de utilidade da filosofia formulada pelos sofistas consistia no fornecimento de instrumentos persuasivos aos interessados em obter vitórias pessoais ou dos grupos nas assembléias. Lembrando que os ensinamentos dos sofistas aos iniciados ou alunos eram realizados mediante pagamentos de seus pais ou tutores. Esta definição de utilidade aplicada à filosofia não se encaixa na prática filosófica. Mas, porém ela persiste até os nossos dias. As pessoas pagam por aulas de auto-escola, judô, informática e diversos serviços, todavia, essa aplicabilidade está isenta de filosofia. Esta prática abusiva foi muito rebatida e combatida por muitos filósofos gregos:

Foi exatamente contra essa concepção utilitarista da filosofia que Sócrates e Platão reagiram. Eles não negam a utilidade lógica da filosofia, mas consideram que a filosofia é muito mais que um método de pensamento. Ela não é estudada com finalidade profissional, como quando se quer aprender um ofício, mas “por cultura, como convém a um homem livre”. (MORRA, 2001)

A filosofia de Sócrates era muito distinta daquela difundida pelos sofistas. Para Sócrates uma vida não examinada não valia à pena ser vivida, neste caso filosofia distingue-se bastante da concepção religiosa e mitológica de mundo, essa nova cosmologia formulada pelos primeiros filósofos definiu os novos pilares do saber racional. Pela primeira vez, temos informações através dos textos que nos foram legados de que a humanidade rompe ao saber religioso e mitológico priorizando um saber mais humano, refletido e acima de tudo racional, é o brotar da filosofia. Ainda Gianfranco Morra (2001) define que a filosofia mostra então sua utilidade enquanto é a capacidade especificamente humana de refletir sobre a vida.

“O homem – escreve Pascal – não passa de um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo: um vapor, uma gota de água bastam para matá-lo. Mas, ainda que o universo o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que quem o mata, porque sabe que morre e conhece a vantagem que o universo tem sobre ele; o universo desconhece tudo isso. Toda a nossa dignidade, consiste, pois, no pensamento. [...]

Pela primeira vez, os gregos desenvolvem um método novo de iniciar investigações dos fenômenos naturais e humanos, isso torna a filosofia extremamente útil, visto que, ela desenvolve e constrói novos conceitos da realidade, embora nenhum desses conceitos seja definitivo ou indiscutível, mas ensina o homem a raciocinar e a sermos humanos. Àqueles que fazem da filosofia um saber prático destinado a algumas finalidades políticas, religiosas, econômicas e sociais estão cometendo o equívoco de atribuir uma utilidade específica a filosofia, neste caso filosofia deixa de útil para se tornar inútil.
            Muitos filósofos quando emitiram definições acerca da filosofia priorizaram que é um meio pelo qual se obtém a arte do bem-viver. Neste caso, filosofia torna-se um saber desinteressado do mundo seguindo critérios próprios de investigação que não podem ser comparados em hipótese alguma ao método científico desenvolvido e praticado pela ciência. As teorias sistematizadas pela ciência são concretizadas por realizações através da técnica, que cria um fim prático para sua utilização, isso não ocorre com a filosofia. Essa utilidade não se encaixa no perfil da prática filosófica.

Para quem pensa dessa forma, o principal para a Filosofia não seriam os conhecimentos (que ficam por conta da ciência), nem as aplicações de teorias (que ficam por conta da tecnologia), mas o ensinamento moral ou ético. A Filosofia seria a arte do bem viver. Estudando as paixões e os vícios humanos, a liberdade e a vontade, analisando a capacidade de nossa razão para impor limites aos nossos desejos e paixões, ensinando-nos a viver de modo honesto e justo na companhia dos outros seres humanos, a Filosofia teria como finalidade ensinarnos a virtude, que é o princípio do bem-viver. (CHAUÍ, 2000)

            A filósofa brasileira Marilena Chauí defende que a filosofia tem a finalidade de colocar a experiência cotidiana em questionamento, desenvolvendo uma reflexão filosófica sobre os acontecimentos mais corriqueiros que muitas vezes não indagamos, mas é preciso utilizar um método lógico de raciocínio evitando-se a formulação de opiniões como acho que e, priorizar afirmações do tipo eu penso que. Nesse sentido a filosofia se torna um instrumento de investigação crítico que consiste no exame minucioso das ações humanas. Em outras palavras nossas crenças e opiniões devem alcançar uma visão crítica de si mesmas.
            O filósofo de São Paulo, Paulo Ghiraldelli Jr., afirma com certa redundância que a filosofia é a desbanalização do banal, neste caso a filosofia é o saber crítico das práticas cotidianas que para a maioria dos humanos são comuns, inquestionáveis e normais demais para se contrariar ou mesmo examiná-las. Desse modo, a filosofia é muito útil para contemplarmos de maneira plausível a busca pela verdade, o que na verdade, falta a muitas pessoas.
            O conhecimento filosófico é um trabalho intelectual. Hegel dizia que a religião é para todos, mas a filosofia não. Neste caso, filosofia não é um saber soberbo, sublime, tampouco pujante, mas é uma maneira de encarar a realidade seguindo critérios rigorosos, racionais e, sobretudo reflexivos. Não discordo daquelas pessoas que ignoram a filosofia, mas vendo as ações humanas diariamente, fico muito preocupado com àqueles que ainda não conhecem a filosofia como deviam conhecer.
            Concluo, portanto, este texto com a reflexão de Marilena Chauí (2000) sobre a indagação da utilidade ou inutilidade da filosofia:

Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.

3 comentários:

  1. sera vc podia tambem ser bem claro na sua linguagem....!

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  2. Não entendi a sua colocação. A ideia de clareza veio com os filósofos iluministas, não ter clareza para estes filósofos é viver na penumbra, na escuridão que é, na verdade, a ignorância. A linguagem pertence a subjetividade, cada um se comunica conforme lhe convém, porém quando não entendemos a linguagem do outro, isso indica que precisamos conhecer ainda mais o outro!
    Abraços.

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  3. foi bom a sua explicação sobre a filosofia muito interessante

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