sábado, 17 de julho de 2010

Sítio arqueológico Gaiola


Como já afirmamos no capítulo anterior, a região possui muitas formações rochosas que serviram num passado remoto de abrigo, habitação provisória e de acampamentos aos grupos pré-históricos que, na condição de nômades viviam nesta parte de Pernambuco.
Os locais são caracterizados pela existência de blocos rochosos, agrupados ou isolados, chamados de matacões. Normalmente, se forma um abrigo pelo processo de arrasto do sedimento que estava acumulado em suas bases.
Encontramos tais abrigos nas encostas das serras, nas colinas e até nas margens dos riachos. A região fica em média 500 metros acima do nível do mar, propiciando climas mais amenos, desenvolvendo o brejo de altitude, com várias plantas frutíferas nativas e, por isso, locais propícios a sobrevivência como pontos estratégicos, tendo em seu entorno ambientes bastante secos.
 Desde meados da década de 1980 foram realizadas inúmeras prospecções e catalogação de sítios arqueológicos no Agreste Pernambucano, porém as pesquisas na Bacia do Rio Una, praticamente não foram ainda realizadas. No entanto, recentemente tivemos notícias da existência de sítios com gravuras rupestres, denominadas itaquatiaras, nos municípios de Ibirajuba e Jurema que passou a fazer parte do nosso objeto de estudo.
A continuidade das pesquisas passa a ser uma exigência urgente e é isso que tenho em mente, para prosseguir na formação em um nível de Stricto Senso.
Com a ampliação dos estudos, se for comprovada o aumento do número de sítios com vestígios pré-históricos fica evidente um Enclave Arqueológico, naquela parte da bacia do rio Una. Em outras palavras, tem-se um caracterizador cultural de uma provável etnia pré-histórica dentro da região Agreste de Pernambuco que em sua maioria possui mais sítios com pinturas e/ou com gravuras. Sem descartar a possibilidade de outros testemunhos arqueológicos, como a cerâmica, o lítico, estruturas antrópicas, restos alimentares, entre outros.
 
1.    Localização Geográfica
  Nossas pesquisas estão voltadas para análises preliminares do sítio arqueológico, conhecido localmente como Gaiola, que fica na zona rural do município de Ibirajuba, PE.

Localização, obtida a partir do uso do Google, conforme se lê nas legendas dentro do gráfico.

A sede do município fica nas seguintes coordenadas geográficas: 08°34'51" Latitude Sul e 36°10'44" Longitude Oeste, mas o sítio está a 10,9 quilômetros do centro daquela cidade, próximo dos limites do município de Jurema (5,4 km) sendo mais perto desta, mas onde fica o sítio é território de Ibirajuba.
Recebeu este nome, provavelmente por está dentro do sítio rural homônimo. O Gaiola também é o nome do rio que corta aqueles municípios, sendo tributário do Rio Una. Geralmente passa o maior período do ano seco, sem movimentação fluvial nos períodos de estiagem. No entanto se pode observar vestígios da existência de água no pretérito, mas no presente existe sim um caldeirão (mais ou menos há 90 metros do sítio arqueológico) do leito rochoso do rio, que acumula água das chuvas e das cheias.
Toda a região é coberta por vegetação de caatinga, sobretudo, observa-se muitas cactáceas, arbustos e árvores retorcidas, mormente desse bioma árido. Numa de suas margens existe um enorme afloramento rochoso, denominado de lajedo de mais de duzentos metros de comprimento, fica em uma elevação de mais ou menos 590 metros acima do nível do mar, neste lajedo existem vários registros rupestres identificados como itaquatiaras, segundo a classificação das técnicas empregadas na produção de registros rupestres. 

Localização do sítio Gaiola, Ibirajuba/PE. O paredão com as gravuras está voltado para o Oeste.

O rio gaiola corta uma parte do lajedo granítico formando dois braços, sendo que num destes braços existe o painel principal[1] com várias gravuras rupestres, o local desses grafismos possui as coordenadas geográficas 8° 40’ 52” S; 36° 10’ 39” O. Há ainda mais dois locais com grafismos rupestres com poucas unidades de registros e ficando isolados um do outro. Este fato é de extrema importância, porque nos indica para uma ocupação mais intensa.
A localidade apresenta uma densa vegetação de caatinga, apesar de algumas faixas que fora desmatadas para plantio e o pastoreio de rebanhos bovinos. Mesmo assim, a observância de recursos hídricos é escassa. Do ponto de vista biológico poderíamos considerar o local como uma das poucas alternativas de acesso a recursos hídricos da região, alguns moradores locais denominam a área do lajedo de brejo. O estudo da pré-história brasileira tem fornecido algumas contribuições neste sentido visto que, a maioria dos sítios arqueológicos conhecido no Agreste pernambucano fica nas proximidades dos referidos brejos, ou seja, havia abundância de água em outros momentos.

A evidência do afloramento rochoso onde se encontra o sítio Gaiola. Outro ângulo do mapa.

Especial importância têm os brejos no “habitat” pré-histórico, espécie de oásis em regiões extremamente secas, ou “ilhas da umidade”, como as chama Aziz Ab’Saber, ou ainda “ilhas verdes”, segundo a definição do geógrafo pernambucano Mário Lacerda. Elas quebram a monotonia das condições físicas e ecológicas dos sertões secos, devendo-se registrar que, na linguagem popular, chama-se “brejo” qualquer setor úmido existente na área do domínio do semi-árido. Os brejos têm solos mais férteis, com filetes d’água, onde é possível o cultivo de quase todos os produtos e frutas típicas dos trópicos úmidos. O brejo é, portanto, um enclave tropical no semi-árido. Essas manchas úmidas que dominam as encostas serranas situadas em regiões semi-áridas, têm meso-climas ilhados entre áreas de grandes deficiências hídricas. (MARTIN, 2005)


2.    As Características do Sítio Gaiola

2.1.        As gravuras rupestres


Neste sítio são observadas gravuras rupestres, identificadas como itaquatiaras. Isso se torna o principal elemento identitário para caracterizar o local como um Sítio Pré-Histórico.
Vale reforçar o que já foi dito, que as itaquatiaras possuem técnicas de confecção muito distintas das pinturas rupestres, neste caso os registros rupestres eram gravados e não pintados. No painel principal existem muitos grafismos, sendo na sua maioria os grafismos puros, mais há também algumas gravuras que podem aludir a fitomorfos (representação de plantas, vegetais, frutos, etc.), porém não foram identificadas representações humanas, tampouco de zoomorfos, o que torna este sítio muito peculiar, se comparados com outros painéis do mesmo tipo de grafismo, conforme foto do painel da Pedra do Ingá, no capítulo II.
Painel principal com as Gravuras itaquatiaras, no Sítio Gaiola – Ibirajuba/PE.

No painel há um grafismo que pode parecer à representação de um zoomorfo. Que analisando a silhueta na qual foi insculpida na rocha, pode-se arriscar essa suposição, todavia, não temos como provar tal intencionalidade. No caso um peixe da espécie dos jundiás e/ou popularmente chamados de “Chupa-Pedra”. Existem duas gravuras que se destacam em todo o painel, dois braços humanos sobrepostos, isso desperta a curiosidade e aponta para um estudo mais profundo dessas gravuras.
 A importância do sítio como caracterizador cultural distinto da maioria dos sítios com itaquatiaras, pois em toda a arte rupestre brasileira a prática comum é a representação pictórica de mãos (chamadas de carimbos), contudo, neste sítio os dois braços se destacam no painel. O suporte/paredão, no qual foram talhadas tais gravuras rupestres tem 5,6 metros de comprimento por 2,65 de altura. Os dois braços possuem 52 cm de comprimento por 43 de altura.
Gabriela Martin (UFPE) e Paulo Tadeu (ex-UFRN) defendem que sítios dessa natureza provavelmente foram ocupados para fins cerimoniais, devido à presença da água no ambiente, locais com recursos hídricos deviam ser cultuados, exatamente para se opor a sua escassez.

Braços humanos sobrepostos. Tipos de grafismos muito incomuns na arte rupestre brasileira.


Além dos braços humanos insculpidos na rocha, não há nenhuma outra evidência de representações alusivas a seres humanos, o restante são os grafismos puros que jamais poderemos identificar seu significado devido à incompreensão do sentido místico, simbólico e sensível dos autores dos grafismos. Alguns grafismos puros lembram a Tradição Agreste, sobretudo, as pinturas rupestres do Sítio arqueológico Alcobaça, porém, as técnicas empregadas são distintas.


As insculturas que talvez sejam fitomorfas se parecem bastante com plantas cactáceas, como mandacaru, levando-se em consideração a semelhança morfológica de tal grafismo e a sua grande recorrência no bioma da caatinga, parece também com plantações de milho, porém, para esta semelhança é preciso bastante cautela pela ausência de vestígios materiais de prática de seu cultivo na pré-história da região e também pelo desenvolvimento preliminar das pesquisas nesta área. 

No mesmo painel vemos representações semelhantes à fitomorfas.
O sítio não oferece camadas estratigráficas que possam ser realizadas escavações, pois o solo do paredão onde fica as gravuras é continuidade do lajedo, complicando o trabalho arqueológico, por isso torna-se importante a procura de outros abrigos que possam ter sido utilizados pelo(s) grupo(s) que viveram naquela área. Outro aspecto que pode levado em consideração é a possibilidade de no entorno do sítio ser encontrados vestígios secundários que revelem mais informações dessa ocupação.
As itaquatiaras necessitam urgentemente de um trabalho de identificação e classificação visto que muitas partes do bloco com inscrições rupestres caíram, provocados provavelmente pelo intemperismo e pela lixiviação causada pelos períodos de cheia do rio Gaiola.
Outro sítio arqueológico, o Boi Branco, no município de Iati (Agreste Meridional), localizado a mais ou menos 90 quilômetros de distância do sítio gaiola. Lá tem algumas gravuras muito parecidas com as de cá, parece-me que as técnicas de elaboração empregadas nos dois sítios são análogas, levando-se em consideração que os dois sítios têm características semelhantes:  as margens de leitos de rios.
A hipótese de coincidência deve ser descartada pelo fato de que as técnicas e imagens representadas nos dois sítios são muito parecidas, porém, no Boi Branco observam-se muitos cúpules[2], enquanto no Sítio Gaiola apenas poucas unidades. Nos dois sítios existem linhas consecutivas e sinuosas que segundo Anne-Marie e Gabriela Martin, consideram que possam representar o curso do rio. No Sítio Gaiola essas linha tem 4,10 metros sendo uma das maiores representações de linhas sinuosas (grafismos puros) da pré-história brasileira.
 
Linhas sinuosas do Sítio Gaiola, em Ibirajuba à esquerda e, os mesmos grafismos, à direita do sítio Boi Branco, Iati.

Outros vestígios observados no Sítio Gaiola reforçam, para nós, que o grupo cultural que por ali passou era caçador-coletor. Assim podemos indicar partindo dos registros deixados por eles, onde não se percebe, por exemplo, nenhuma alusão a atividades específicas aos agricultores. Como coletores, observamos carapaças de moluscos (tipo caramujos), reunidos de forma que indica intencionalidade, foram colocados ou empurrados por enchentes para um local onde ficou difícil ser arrastados por uma segunda enxurrada. As duas ideias são possibilidades, mas não invalida a outra questão: ter sido abandonado ali como resto alimentar. Como o sítio não possui sedimento buscamos nesses detalhes indicativos de atividades antrópicas.
Nas imediações da cidade de Jurema, temos notícias da existência de muitos sítios com gravuras e pinturas. As pesquisas ainda são muito tênues e preliminares, mais no decorrer dos estudos que estão (uns nas intenções, outros em andamento) sendo realizados espera-se uma maior riqueza de dados e possa confirmar a classificação de Enclave Arqueológico e que aumenta de importância por está dentro da já definida Área Arqueológica dos Cariris Velhos, corroborando com as pesquisas da UFPE, da UNICAP e outros centros.


[1] Utilizei tal expressão pela constatação de mais dois locais com gravuras rupestres, contudo, neste painel existe a maior concentração de grafismos.
[2] Segundo o arqueólogo Andre Prous, cúpules são representações de pequenas esferas gravadas nas rochas.

10 comentários:

  1. gostaria de saber qual é a data que estes desenhos foram encontrados e de pais (acho que é do brasil) e estado se possivel me responda rapido
    obrigada
    anonimo

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  2. A data ainda não é possível, pois não foram feitas prospecções no local. Tais gravuras ficam no Agreste Pernambucano e este sítio foi descoberto pouco mais de 2 anos. Você é da UFPE? Abraços...

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  3. Oi,sou morador da cidade de Ibirajuba - PE,estudo Design na UFPE-CAA..
    Gostei muito do trabalho que vc realizou em minha cidade,e aproveito o espaço para lhe indicar um ponto arqueologico maravilhoso na cidade.
    Aqui na cidade,tem uma pedra gigantesca(zona rural) que fica na parte mais alta da cidade.. dar para ver ela de toda parte da cidade..
    Essa pedra é conhecida como "A Pedra de Delmiro",qualquer cidadão da cidade sabe ou ja ouviu falar sobre ela.. ha aproximadamente 4 anos visitei ela e pude notar tal qual interessante é o lugar..
    Pra vc ter ideia tem varios desenhos esculpidos nas rochas de uma forma tao perfeita.. como se fosse feita por um artista!sem contar nas palavras que ninguem sab o que significa.. e ainda tem um parte na pedra que é plana,creio eu ki foi ideal para a moradia dos povos passados..
    Gostaria muito que vc visitase o lugar para ver do que estou falando!naum sei te dizer as coordenadas,porem muitas pessoas na cidade sabe..
    Ateciosamente Edenilton.

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  4. Obrigado Edenilton pelas informações.
    Minha esposa é de Ibirajuba, já ouvi falar bastante da pedra de Delmiro, porém ninguém me falou que nela contem inscrições rupestres. Resta saber se estas inscrições foram feitas por povos pré-históricos ou por moradores locais, mais vou conhecê-la, mesmo assim.

    Att.

    Professor Francisco José

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  5. De nada!
    O importante é revelar o patrimonio da cidade..
    Mostrar ..
    Naum sei lhe informar se as inscriçoes sao rupestres.. porem sao umas letras estranhas.. lembram muito algarismos romanos..
    Boa sorte!

    fuiiiii..

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  6. as imagens dos braços sobrepostos, quando giradas a 90 graus representam uma pessoa sentada.
    Belíssimos desenhos.
    E boas imagens. Parabéns

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  7. Obrigado Ciro pela dedução. Dá mesmo a impressão de uma pessoa sentada, mas por que não fizeram antes nesse ângulo? Fica a duvida, gostaria de receber ajuda de alguém da área para ampliar as pesquisas. Abraços.

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  8. Prezado chico parabens! professores como voce é o que está faltando por aí.

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  9. olá chico, bastante interessante sua matéria, voce deveria sim, fazer um mestrado nesse tema, que apesar de ser bastante misterioso e super interessante , mostra também a riquesa de nossa regiao.

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