domingo, 12 de setembro de 2010

Jô Soares entrevista Eduardo Bueno

               No dia da Independência do Brasil o jornalista e humorista Jô Soares recebeu em seu programa o também jornalista, escritor e Historiador por paixão, Eduardo Bueno. A entrevista decorreu por mais de 40 minutos. Eduardo Bueno tem formação acadêmica de Jornalista, mas já escreveu mais de 20 livros sobre história e, sobretudo, história do Brasil. A sua visita ao programa de Jô Soares foi motivada pelo lançamento se seu mais novo Livro: Brasil: uma história – cinco séculos de um país em construção, Editora Leya. Nesse ínterim, ele fez alguns comentários sobre a estrutura do livro, discutindo e comentando alguns capítulos e, algumas das suas observações chamaram a nossa atenção sobre o primeiro capítulo do livro que trata da pré-história do Brasil. Assisti a entrevista ontem, e percebi alguns equívocos que para o não historiador, provavelmente, passaram despercebidos.
 O jornalista e Escritor, Eduardo Bueno.
            Eduardo Bueno mencionou que a pré-história brasileira sofreu muitos avanços nas últimas décadas através dos estudos e novas pesquisas de arqueólogos brasileiros e estrangeiros – isso é inegável –, mas ele cometeu quatro pequenos/grandes erros ou equívocos sobre alguns dados arqueológicos.
            Primeiro, na sua entrevista, Eduardo Bueno menciona informações concernentes do crânio de Luzia, que é na verdade, o fóssil humano mais antigo das Américas e foi descoberto no abrigo sob rocha Lapa Vermelha IV, na região de Pedro Leopoldo, em Minas Gerais. Este achado é considerado uma das maiores descobertas arqueológicas do século XX – apesar de apenas ter sido encontrado o seu crânio –, contudo, Eduardo cometeu um deslize sobre a datação radiocarbônica de Luzia, segundo Bueno, Luzia possui 9.000 anos antes do presente. A datação correta, segundo um dos seus estudiosos Walter Alves Neves[1] é de no mínimo 11 mil anos. Para corroborar essa datação:
                       
Na Lapa Vermelha IV, conforme já mencionado, ossos e fezes de preguiça-terrícola (Catonyx cuvieri) foram datados, de forma indireta (carvões do mesmo nível sedimentar), em 9,5 mil anos, mas não foi possível estabelecer uma associação clara e direta entre esses restos faunísticos e as fogueiras e instrumentos líticos encontrados no sítio. Mas em nível estratigráfico inferior, datado por volta de 11 mil anos, portanto mais antigo que os vestígios da preguiça-terrícola, foi encontrado o esqueleto humano, posteriormente denominado Luzia. [...] Em resumo, Luzia e seu povo viveram no final do Pleistoceno, entre 12 e 10 mil anos atrás [...] (NEVES; PILÓ, 2008, p. 261, 262 e 305. Grifo meu)

            Segundo, Eduardo Bueno fala a Jô Soares que um dos pesquisadores de Luzia é o arqueólogo, Walter Alves Neves. Outro engano. Walter, na verdade é graduado e pós-graduado com título de Doutorado e Pós-doutorado em Ciências Biológicas e Atualmente é Professor Titular do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da Universidade de São Paulo, onde fundou e coordena o Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos, único do gênero da América Latina. Portanto, Walter Neves não é arqueólogo, mas trabalha na área investigando e pesquisando os processos evolutivos e biológicos dos primeiros americanos. (Cf. http://lattes.cnpq.br/4940507980201276)
            Terceiro, Bueno diz que a pesquisadora que realizou as pesquisas arqueológicas na região de Lagoa Santa, na década de 1970 – período de 1974/1975 – era uma arqueóloga Americana que infelizmente faleceu num acidente de automóvel. Concernente ao acidente fatal Eduardo está correto, todavia, a arqueóloga não era Americana, mas Francesa. Seu nome Annette Laming-Emperaire que após inúmeras escavações na região encontrou o crânio de Luzia no abrigo Lapa Vermelha IV, município de Pedro Leopoldo/MG. (Cf. a matéria sobre Luzia no link http://chicohistoriador.blogspot.com/2009_07_01_archive.htmlb)
            Quarto, Eduardo faz referências a São Raimundo Nonato, cidade localizada no sudoeste do Piauí, e menciona que as pesquisas ali realizadas demonstraram que o homem americano podia ter habitado aquela região há pelo menos 35 mil anos atrás, sobretudo, no abrigo sob rocha Boqueirão da Pedra Furada. Ledo engano, o sítio Boqueirão da Pedra Furada possui mais de 48 mil anos antes do presente. Para ratificar:
Em março de 1993, Fábio Parenti defendeu, em Paris, uma tese de Doutoramento, dirigida por Niède Guidon, sob o título “Le gisement quaternaire de La Toca do Boqueirão da Pedra Furada (Piauí, Brésil) dans Le contexte de La préhistoire américaine. Fouilles, stratigraphie, chronologie, evolution culturelle”. Nela apresentou um estudo completo da escavação do Sítio do Boqueirão da Pedra Furada, hoje um sítio internacionalmente famoso pelas evidências da presença humana no NE do Brasil com uma seqüência cronológica que vai desde 48.000 anos até 6.000 antes do presente. (MARTIN, 2005. p. 94 – 95. Grifo meu)
 Novo livro de Eduardo Bueno.
            Portanto, minha intenção não é negar a obra e relevância do referido livro publicado pelo Jornalista Eduardo Bueno, não tenho tal intenção, mas demonstrar que a pesquisa historiográfica deve ser realizada mediante um enorme rigor científico e metodológico que muitas vezes fica a cabo do verdadeiro historiador. Ouvi recentemente de um grande historiador pernambucano, Antônio Paulo Resende – Professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) – que qualquer pessoa pode escrever história e estória, contudo, o olhar do historiador nato é mais panorâmico e profundo. Ultimamente no nosso país muitos jornalistas têm escrito sobre história, e suas publicações têm se tornado best-seller, acredito, que devido a sua habilidade e facilidade de escrever bem, foram bastante lidos e aceitos pelos brasileiros.
            Eduardo Bueno demonstra ser essa pessoa que dispõe de enorme facilidade em recontar, reescrever acontecimentos do passado e presente do Brasil, no entanto, lhe carecem a astúcia e requinte que são elementos imprescindíveis do historiador. O historiador sabe como recolher as fontes históricas de maneira coerente, prudente, racional e precisa, elemento que muitas vezes falta ao jornalista.
            Confiram o vídeo com a entrevista na íntegra nos meus vídeos abaixo ou pelo link direto http://www.youtube.com/watch?v=04Tv-f4deO4


[1] NEVES, Walter Alves & PILÓ, Luís Beethoven. O povo de Luzia, em busca dos primeiros americanos. São Paulo: Editora Globo, 2008.

2 comentários:

  1. Astúcia não lhe falta, requinte é coisa de burguês! Dã.....

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  2. Astúcia não lhe falta, requinte é coisa de burguês! Dã.....

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